Indicação de Leitura: Mesmo Rio de Elisama Santos
- Aline Peixinho
- 13 de dez. de 2025
- 2 min de leitura
Ler Mesmo rio é acompanhar movimentos que não se anunciam como grandes acontecimentos, mas que vão se acumulando no corpo, nos gestos, nas escolhas miúdas do cotidiano. Nada ali se organiza para explicar ou resolver, o livro segue mais interessado em mostrar como certas histórias continuam operando mesmo quando já não se fala delas, como vínculos antigos seguem atravessando relações atuais, mesmo depois de rupturas que pareciam definitivas.
Há algo insistente na forma como os personagens retornam aos mesmos lugares, às mesmas cenas internas, ainda que em tempos diferentes. O rio não é metáfora de superação, nem de passagem limpa, é um curso que carrega resíduos, memórias, afetos mal digeridos, e segue seu caminho, mesmo que tortuoso. Cada reencontro evidencia isso, porque ninguém volta igual e, ainda assim, algo se repete, não por destino, nem por falta de esforço, mas porque há coisas que não se organizam apenas com o passar do tempo.
O livro se constrói muito a partir do que não foi dito no momento certo, do que foi engolido para manter uma convivência possível, do que se adiou em nome de uma ideia de família, de cuidado, de responsabilidade, e pequenas cenas deixam isso evidente, como a tensão em um almoço, um comentário atravessado, um olhar que escapa rápido demais. São nesses detalhes que a narrativa ganha densidade, porque ali aparece o conflito sem precisar ser nomeado.
As relações familiares, especialmente, não surgem romantizadas nem demonizadas, há amor, há cansaço, há ressentimento, tudo coexistindo no mesmo espaço, a autora parece recusar a ideia de que exista uma única leitura possível para essas histórias. Cada personagem carrega sua própria lógica, suas justificativas, suas faltas, e é justamente aí que o texto encontra força, ao não organizar hierarquias morais claras, ao não oferecer atalhos para o leitor escolher lados com conforto.
Outro ponto que atravessa a leitura é a forma como certos papéis vão sendo ocupados quase sem negociação, quem cuida demais, quem se afasta, quem sustenta, quem some. Esses lugares não aparecem como escolhas conscientes, mas como respostas possíveis dentro de um contexto específico, em que o cotidiano vai moldando essas posições aos poucos, até que elas parecem naturais, difíceis de questionar, mesmo quando começam a doer.
Mesmo rio também provoca ao mostrar como a ideia de mudança nem sempre coincide com alívio. Às vezes, mudar exige encarar perdas que não cabem em discursos otimistas. Às vezes seguir em frente implica reconhecer que algo não será reparado. O livro não tenta suavizar isso, pelo contrário, mantém o desconforto como parte da experiência, sem prometer fechamento.
Ao final da leitura, fica menos a sensação de ter compreendido tudo e mais a impressão de ter sido colocado diante de perguntas que seguem abertas, perguntas sobre repetição, sobre herança emocional, sobre o que se transmite sem intenção. Não como exercício de análise, nem como busca por respostas, mas como reconhecimento de que certas histórias pedem tempo, escuta e complexidade, e talvez seja justamente essa recusa em simplificar que faz de Mesmo rio uma leitura que permanece, escorrendo devagar, mesmo depois da última página.

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